
Existem vários métodos para se pesquisar e descobrir informações, porém uma das grandes dificuldade é conseguir ir além do senso comum e obter informações que possibilitem o desenvolvimento criativo e a construção de ideias novas.
Um dos métodos mais
interessantes que já vi, neste sentido, é o da Sondagem
Cultural, apresentado pelo Fred na disciplina de Sociologia da
Técnica como um método para conseguir informações sobre como as pessoas se relacionam na intimidade e quais são seus sentimento e, desse modo, perceber problemas que as pessoas encontram no dia-a-dia.
Pensando neste sentido, o humor possui características que permitem que ele seja utilizado como método ou técnica para pesquisa:
a contação de histórias envolventes, a criação da dúvida, a exposição
do ridículo ou a situação inesperada (comédia pastelão) são algumas destas. Em uma piada são imaginados
cenários e personagens, que interagem. Uma risada pode ser estimulada ou
sentida das mais diversas formas e se utilizando diversos sentidos: de uma torta na cara até uma sessão de cócegas!
A
piada quebra o "gelo", seduz, envolve e cria cumplicidade. É muito mais
fácil expor as contradições de uma pessoa ou um grupo de pessoas,
através de uma piada. Talvez por isso, as piadas possam lidar com o
preconceito, ou com o politicamente incorreto ("perco o amigo mas não perco a piada").
![]()
Montagem sobre foto do Lula, por Diogo, no Site LulaLOL
Com uma piada é permitido dizer "aquilo que não se fala", afinal, a pessoa "estava só brincando" (contar piadas também é uma brincadeira!). Vários seriados do tipo "comédia de situação (sitcom,
em inglês) não fazem que a gente ria de algum esteriótipo, mas no fazem rir (mesmo sem perceber) de nós mesmos.
![]()
Varias tiras, de Laerte, Adã, Chiquinha e Allan Sieber, publicadas na Folha de São Paulo.
Há
quem diga que contar piadas é trabalhar com o "timing", ou
seja, com o tempo. Saber a hora de contar, o momento certo
de começar e terminar ela. E isso entra diretamente em Design de Experiência, e torna possível associar o
oficício do piadista com o do Designer de Interação... que, no caso,
pode ser um "Designer de Sorrisos" (eu não ia usar esta expressão, ajudando a banalizar o termo
"design", mas...). E não adianta apenas saber contar piada. O público
tem que "saber" ouvir.
Lembro-me de uma apresentação engraçadíssima do espetáculo Tangos e
Tragédias.
Ao
final, conversei rapidamente com os atores, elogiando o domínio que
achei que eles tinham sobre a platéia, ao que eles me responderam que
"o público é que era
bom". Pois público que está aberto à risada, quando encontra algo
engraçado, acha graça. Mas que piada consegue fazer rir quem não quer
dar risada? O que o Paulo Leminski trata sobre esta relação no vídeo abaixo, mostrando o diálogo entre o leitor e o escritor, na poesia:
Método?
A
contação de piadas não pode, então, virar um método? Como? De onde
surgem as piadas? Quem as inventa e como faz? O que é o engraçado?
Não
é qualquer um que saber contar uma boa piada, mas quem que nunca contou uma piada, ou nunca fez alguém rir?. Atualmente, vem surgindo uma nova geração de humoristas no Brasil, com grande exposição
na mídia e ênfase em formas de humor até então pouco exploradas, como
o stand-up comedy (comédia de "pé") e o improviso. Veja um exemplo
neste vídeo ou no
vídeo abaixo:
Nestes
formatos de improviso, apresentados acima, são colocadas uma limitação
de formato (só pode falar com perguntas, responder com mímicas, criar
frases, movimentos, etc) e um objetivo para o conteúdo (a palavra agora é "padaria"
ou "coisas para se dizer quando o computador trava"). Além de ser muito
divertido para quem assiste e para quem participa,
pense nas referências que devem pipocar na cabeça do participante de
uma destas rodadas de improviso, quando um palavra-chave é sugerida?
As reuniões para exercitar a criatividade costumam ser recheadas
de "piadinhas", então porque não aproveitar todo esse "potencial" criativo?
![]()
E, como eu ia dizendo, para-plagiando Jerry Seinfeld: o designer de
interação entrou na empresa com um porco debaixo do braço e...



Comentários
Design Centrado no Humor
Muito perspicaz sua análise. O humor é componente fundamental de sessões de brainstorming, porém, porque não pode ser também quando se está pesquisando a vida do usuário? Se o designer se diverte criando o artefato, porque o usuário não pode se divertir também?
A Universidade de Delft possui várias pesquisas sobre design e emoção. Esta aqui documenta o design de uma cadeira de rodas (olha a referência para o Free Will Chair aí) que foi projetada para ser divertida.
Esquete de novos significados a objetos
No Twiiter, o @arquitetando lembrou de uma esquete onde se deve dar novos significados a objetos, no programa Quinta Categoria (na MTV, com Marcos Mion e os Barbixas). É um modo divertido e ágil de explorar a imaginação.
Analisando uma tira
A tira me lembra o projeto "6º Sentido" ao brincar com a ideia de acesso à internet, em qualquer lugar, para buscar informações sobre qualquer coisa (e, no caso da tira, qualquer pessoa).
O projeto "6º Sentido" já foi bem criticado no texto Um cego liderando cegos, mas a tira evidencia vários pontos sobre esta proposta de tecnologia e sua possível utilização pelas pessoas:
- A garota acessou seu dispositivo e descobriu que o rapaz é "Emocionalmente inacessível". No final das contas, quem foi "inacessível" na história da piada?
- A confiança na tecnologia para tomar decisões mais "certas" e evitar conflitos e problemas emocionais/sentimentais não pode acabar evitando, simplesmente, as emoções e sentimento (de todos os tipos)? Nossos rastros na internet, e a opinião e registros de outras pessoas sobre mim ou algo que fizemos um dia podem nos perseguir por toda a vida?
- O dispositivo também mostrou que o cara é um "Egoísta na cama" e "Mulherengo, enganador mentiroso". Quem escreveu isso? De quem é essa opinião? Qual foi o contexto que levou aquelas pessoas que escreveram aquilo, a dizer isso do rapaz? Será que ele mudou? Será que estavam brincando ou "sacaneando" com ele? O dispositivo não pode ter falhado (no reconhecimento de face ou no acesso ao banco de dados) e acessado informações de outra pessoa?
- As opiniões poderiam ter a "data", para saber quando que deram essa opinião. Se o rapaz era de um jeito a 10 anos atrás, não pode ser diferente agora?
- Receber a opinião de uma amiga, de um parente, ou ver uma nota pública sobre uma pessoa é bem diferente que comentários curtos e tão "definitivos" vindo de pessoas anônimas; Se o dispositivos mostrasse opiniões de usuários que eu escolhesse, amigos e pessoas cujas opiniões eu admiro, eu não poderia ter informações mais confiáveis?
- Não é estranho imaginar uma pessoa ficar na frente da outra acessando um dispositivo e sem responder a pergunta que a outra fez?
- Além do tempo de resposta do artefato é muito demorado, ele está visível para a outra pessoa tornando meio bizarra esta situação de interação face-a-face: a outra pessoa vê que a outra está fazendo algo, e que tem a ver consigo.
Entre outras análises possíveis... alguém tem mais alguma? :)Humor na pesquisa com usuários
Muito bom o insight. Já tinha visto algo sobre métodos envolvendo design emocional e jogos. Mas nunca tinha visto nem pensado o humor do jeito que você descreveu como algo que pudesse ser aproveitado nos métodos de design.
A maneira que você colocou está mais para um método de concepção/criação, mas dá para adaptar para um método de pesquisa, como o Fred comentou.
Você conseguiu mostrar o potencial do humor como método e sugeriu uma situação na qual esse futuro método pode ser usado, reuniões de brainstorming, mas faltou definir o método propriamente. Um método é algo objetivo, prático. Tem que ser bem definido com etapas, infra-estrutura e recursos necessários, etc. Veja o exemplo do método "21st Century Town Meeting" (PDF).
Seinfeld e o Blackberry
Fala Gonzatto, muito bacana essas suas percepções sobre o humor. Em se tratanto de stand up eu acredito que um dos humoristas que mais utiliza os referencias de comportamento humano em suas apresentações é o americano Seinfeld. Inconscientemente ele realiza uma pesquisa comportalmental.
Veja no video abaixo.
Enviar comentário