
Entendo computação pervasiva / ubiquidade computacional como sendo a presença de tecnologia computacional no dia-a-dia das pessoas, seja na forma de objetos, seja no ambiente, de modo que esta tecnologia seja "invisível", seja imperceptível às pessoas. Things "Just Work", como disse Adam Greenfield em "Everyware". Ou como analisou Mark Weiser, é uma tecnologia que fica na periferia, e não no centro de nossa atenção.
De todos os textos lidos, este de Mark Weiser, "The Coming Age of Calm Technology", foi o que mais me chamou a atenção. Neste texto, Weiser cita as diferentes "eras" da computação. Desde a era do mainframe (várias pessoas dividindo um único computador), passando pelo computador pessoal (um computador para uma pessoa), e chegando à computação pervasiva, onde vários computadores dividem a atenção de cada pessoa. Acredito que a computação pervasiva é um fenômeno inevitável, mas o que me fez achar este texto como sendo o mais "intrigante" é o fato de ele ter sido escrito em 1996, ou seja, há mais de 10 anos!
Neste artigo, Weiser cita as janelas de escritório, sejam elas voltadas para o exterior do prédio ou voltadas para um corredor, como um bom exemplo do funcionamento da nossa atenção, centro versus periferia, fator que considero como sendo um ponto fundamental da computação pervasiva. Ele faz referência ao ambiente de trabalho sem divisórias entre as mesas (ou com divisórias do tipo mais baixas), afirmando que estes tipos de ambiente, "open offices", exigem muito da nossa atenção central.
Concordo plenamente com esta afirmação. No escritório onde trabalho, é exatamente este tipo de ambiente que prevalece. É uma grande sala, com cerca de 80 mesas, com divisórias baixas, de aproximadamente 20cm de altura em relação ao plano da mesa. No meu primeiro dia de trabalho, há cerca de 4 anos, logo que sentei no meu lugar, tive uma sensação muito estranha. A impressão é a de que todos estavam prestando atenção em você, e qualquer movimentação, seja de alguém se levantando, ou de alguém passando ao seu lado, tirava sua concentração. Bastava alguém falar um pouco mais alto, e você direcionava sua atenção a essa pessoa, porque tornava-se necessário saber se ela estava falando com você ou com outra pessoa.
Como bem disse Weiser, esses ambientes demandam muito da nossa atenção, por causa de convenções sociais de conduta, privacidade e educação. Eu poderia muito bem me desligar do entorno e mergulhar na tarefa desempenhada naquele momento. Isso poderia fazer com que eu produzisse mais? Provavelmente sim. Em contrapartida, me tornaria uma pessoa não muito sociável, e até deseducada caso alguém estivesse direcionando a palavra a mim. E ainda mais no meu caso, sendo um funcionário novo, era preciso trabalhar o lado social com os novos colegas. Conclusão: não me senti muito à vontade nesse ambiente, e nesse primeiro dia praticamente não produzi nada.
Com o tempo, acabamos nos acostumando à situação, e hoje tornou-se uma coisa natural. Entretanto, penso que, se trabalhássemos em um ambiente cuja privacidade fosse maior, certamente a produtividade seria maior, principalmente quando precisássemos nos concentrar de forma mais intensa, seja lendo ou elaborando algum documento importante, ou então estudando algum livro mais técnico. A cada toque de telefone na mesa ao lado, a cada pessoa que chega na mesa ao lado, sua atenção acaba se voltando para esse fato. Ou seja, a nossa atenção é desviada desnecessariamente, por conta de fatos que não nos dizem respeito.
Como diz o texto, é o indivíduo, e não o ambiente, que deve estar no comando da mudança da atenção do centro para a periferia e vice-versa. E provavelmente esse foi o motivo da dificuldade encontrada por mim neste novo ambiente de trabalho.
Nunca perguntei aos meus superiores o motivo pelo qual as mesas são desse tipo, praticamente sem divisórias, mas acredito que a resposta seria algo como "para uma boa integração entre os funcionários", ou "para melhorar o ambiente de trabalho", ou então "para ninguém ficar alienado", etc. Creio que há uma certa verdade nisso, pois trabalhar a vida toda isoladamente, num cubículo, não seja a alternativa mais saudável. Entretanto, desconfio que haja uma certa dose de necessidade de fiscalização nisso tudo. É preciso policiar o funcionário, e nada mais adequado do que colocá-lo num ambiente de pouca privacidade, que o desencoraje a tomar atitudes que não estejam em conformidade com os interesses da empresa.
Acredito que este ponto, privacidade, seja a questão mais contraditória da computação pervasiva. Vejamos por exemplo o Whereabouts Clock, citado no texto de Richard Harper. Trata-se de um artefato bastante interessante, cuja função principal é saber a localização de pessoas em tempo real. Embora seja bastante útil em diversas situações, a questão da privacidade surge como um ponto polêmico do projeto. Segundo Harper, esse dispositivo ficaria num ponto fixo (em casa, por exemplo), e a informação estaria disponível somente neste local, e apenas para membros desta família. Entretanto, não tenho dúvidas de que métodos para burlar este sistema (demandado por filhos rebeldes ou por cônjuges infiéis) certamente surgirão. Até que ponto é preciso controlar ou saber a localização de outras pessoas? Até que ponto ou em que momentos uma pessoa deseja que saibam a sua localização? São questões de privacidade que precisam ser muito bem estudados.
Um outro artefato citado por Harper é o Homenote. Achei muito interessante o seu conceito, de ser uma tecnologia "person-to-place", ao invés de "person-to-person", como é o caso do telefone celular. Além disso, o uso desta tecnologia dentro de uma família pode ter um efeito social e afetivo bastante válido. Apesar de eu ter gostado deste conceito, o mesmo não deveria me surpreender, afinal de contas as tecnologias de comunicação "tradicionais", como o correio e o telefone fixo, sempre funcionaram segundo o esquema "person-to-place".
Outra tecnologia que também trabalha com a questão da localização / posicionamento é o RFID. Pode-se dizer que trata-se de uma tecnologia com grande potencial para revolucionar vários aspectos das nossas vidas. Ele possibilita gravar e, mais importante, atualizar dados de um produto; permite que a leitura desses dados seja feita apenas aproximando-se o objeto do leitor, em qualquer posição; permite disparar ações previamente programadas. Bibliotecas, almoxarifados, depósitos, supermercados... são apenas alguns exemplos de locais onde será possível ocorrer uma grande mudança na forma de trabalho. Diversas aplicações foram apresentadas em aula, e muitas delas já são realidade no Brasil, como por exemplo os pedágios Sem Parar, onde as etiquetas RFID estão afixadas nos pára-brisas dos veículos, e o leitor na cancela identifica a etiqueta, debita o valor e libera a passagem. Citei este exemplo pois já o utilizei, e afirmo que é uma grande melhoria em relação ao pedágio tradicional. O ideal seria não precisarmos pagar pela passagem, diria alguém, mas esta é uma outra grande discussão.
Uma outra aplicação desta tecnologia, que acredito não ter sido citada em aula, seria em estacionamentos. As etiquetas RFID, instaladas nos veículos, são identificadas pelos leitores na entrada dos estabelecimentos. Com isso, é possível saber exatamente quantas vagas ainda estão disponíveis antes mesmo de entrar (através de um display na entrada do estacionamento), e onde elas estão localizadas. Com isso, evita-se perder tempo (e paciência) entrando num supermercado que já está lotado, fato comum, pelo menos aqui em São Paulo.
Apesar da discussão do uso do automóvel em detrimento do transporte coletivo seja uma outra grande discussão (e para um outro momento), acredito que supermercados precisam ser locais muito bem preparados para receber automóveis. Um indivíduo que vai fazer compras para a sua família de 5 pessoas certamente precisará ir de carro ao supermercado, pelo menos até o surgimento de uma tecnologia que permita solucionar a questão do transporte das compras, do estabelecimento até a residência do cliente. Ou então até que a forma de compra seja alterada. Enfim, eis bom desafio para o design de interação.
Na minha opinião, a função do designer de interação é a de trazer novas tecnologias para o cotidiano das pessoas. Mas não é simplesmente trazer esta tecnologia, é preciso estudar todos os seus aspectos, é preciso analisar e trabalhar o design, a ergonomia, a usabilidade, as questões éticas envolvidas, para que a experiência da utilização dessa tecnologia seja agradável ao usuário e, mais importante, para que essa tecnologia seja útil para a sociedade. Se bem estudada e adequadamente aplicada, qualquer tecnologia, seja ela pervasiva ou não, pode trazer consequências benéficas na vida do cidadão comum.
Como designers de interação, é nosso papel assegurar que a questão da pervasividade computacional seja estudada a fundo e com afinco, para que seus efeitos causem um impacto positivo na vida das pessoas. Tal preocupação se justifica pelas contradições, pelos problemas que certamente surgirão juntamente com toda a tecnologia exigida pela computação pervasiva. A meu ver, toda nova tecnologia traz consigo uma contradição. Ou seja, a contradição é um fator inerente à tecnologia, é um fator que sempre acompanha o desenvolvimento tecnológico. Podemos citar como exemplo o surgimento das armas de fogo. Sem dúvida foi um grande avanço tecnológico. Possibilitou ao detentor da sua tecnologia exercer poder sobre outros seres humanos, de uma forma antes jamais imaginada. No caso de uma força policial, por exemplo, que zela pela ordem e pelo cumprimento das leis (pelo menos em tese) o surgimento da arma de fogo foi um fator extremamente benéfico. Em contrapartida, essa tecnologia pode também servir ao propósito de matar seres humanos, o que é contraditório. Afinal, a tecnologia não deveria prejudicar as pessoas, muito menos a ponto de tirar a vida delas.
Será também papel do designer de interação saber exatamente o que fazer e também como lidar com as consequências de uma eventual falha na tecnologia computacional. Por mais avançada e segura que uma tecnologia afirme ser, ela jamais será perfeita. E é preciso estar preparado para quando ela falhar.

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