Cubo Surreal

Em nosso dia a dia estamos em contato com tantos objetos que às vezes esquecemos de refletir sobre o real papel que cada um deles representa em nossa vida. Analisando melhor a maneira com que o objeto faz a mediação entre o usuário e o seu objetivo, podemos ver que alguns alteram a própria percepção da realidade para este que o utiliza.

Para exemplificar melhor, vamos ver um caso específico:

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Um dos objetos mais estimados por Frederico, com 20 anos, é o seu cubo de Rubik, mais conhecido como cubo mágico. Ele o leva para quase todo lugar que vai. Nesse quebra-cabeça tridimensional, você movimenta suas partes para deixar cada face do cubo com apenas uma cor. Além de ser um brinquedo diferente, o cubo possui fama de ajudar a praticar o raciocínio, pois para resolvê-lo seu usuário precisa prever vários acontecimentos simultâneos.

Foi realizada a seguinte entrevista:

Mabel: Qual característica do cubo mágico você acha a mais interessante?
Frederico: O cubo me ajudou muito no raciocínio, essa é impressão que tenho. Muitas vezes meus colegas me trazem algum problema de lógica e eu noto que uso o mesmo método que utilizo no cubo para resolver aquele problema. É como se eu pudesse mentalmente prever todo o método de tentativa e erro que eu teria que fazer, mas com muito mais rapidez.

Mabel: É como se você pudesse notar melhor os detalhes?
Frederico: Sim, eu tenho essa sensação. Quando alguma coisa está diferente, ou eu tenho a necessidade de encontrar algo, é legal poder perceber com facilidade.

Mabel: Mudando um pouco o foco, queria saber se o cubo mágico tem alguma outra importância pra você além desta que comentamos. Como uma importância emocional, por exemplo.
Frederico: Claro, eu adoro o meu cubo, é uma das coisas que mais gosto no meu quarto. Ele é mais do que um simples objeto. Quando não tenho o que fazer, a primeira coisa que penso é em brincar com ele.

Mabel: E você sempre o deixa resolvido?
Frederico: Sim, sempre. Quando alguém mexe nele e não consegue resolver, é como se ele pedisse para eu terminar. No começo, quando eu não tinha muita prática e demorava pra solucionar, chegava a me atrasar pra algum compromisso para não deixar que ele ficasse incompleto.

Mabel: Consegue lembrar de outra utilidade que você atribui ao cubo?
Frederico: Acho que tenho outra, sim. Eu costumo levar ele para lugares inusitados, pois muita gente acaba puxando conversa. Sempre começa com a pergunta “nossa, como você faz isso?”. Eu gosto dessa reação das pessoas.

Mabel: Durante o manuseio do brinquedo, chega a um ponto onde, você se concentra tanto no objetivo do jogo que esquece do lado material do objeto? E inclusive de que ele é algo quebrável?
Frederico: É engraçado você comentar isso porque me lembra o primeiro cubo que eu tive. Ele era bem barato, e as articulações tinham pontos onde emperravam. Nesse processo de resolver o cubo, eu acabo me atendo muito às cores e ao objetivo de mantê-las unidas. Eu ficava girando o cubo e quando ele trancava causava certa estranheza, como se isso não era pra acontecer. Justamente por esse motivo comprei um melhor e mais fácil de mexer, para tentar me livrar dessa característica material.

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Refletindo melhor sobre essa entrevista, vemos que a idéia que o usuário tem de certos objetos é diferente do que eles são na realidade. Na nossa interpretação, os objetos podem acabar sendo algo com muito mais significado ou até com menos falhas. No caso dessa afeição que criamos pelas coisas, pode ser difícil perceber que essa afeição é mais pela relação que temos com o objeto do que pelo objeto em si. Em outro caso, quando nos focamos tanto no objetivo pelo qual estamos utilizando alguma coisa, e esta estiver exercendo sua função sem nenhuma falha, acabamos esquecendo dela e do processo de mediação que ela está fazendo.

Comentários

Parabéns

Muito bacana sua entrevista Mabel! Na próxima turma vou propor o exercício como sendo uma entrevista, nos moldes do que você desenvolveu.

A questão que me fez pensar é como inverter o sentido e aproveitar esse conhecimento sobre a relação emocional com objetos em tempo de projeto. 

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