
Por Silvana de Borba, designer de produto, pós graduanda em Design de Interação
Vivemos em meio à tecnologia de forma tão natural que dificilmente conseguimos imaginar nossas vidas sem ela ou parte dela. Acordamos por um despertador, fazemos o café numa cafeteira elétrica, assistimos ao noticiário matinal através da televisão, nos conduzimos ao trabalho de carro ou ouvindo um mp3 em nosso mp(nºx) sabe se lá em qual número isso vai parar e o dia inteiro é rodeado de aparatos tecnológicos. Enfim, a nossa vida começa e termina em meio a objetos e produtos que mesmo não sendo digitais são envolvidos mesmo em sua fabricação em algum processo tecnológico. Mais especificamente venho através deste ensaio falar sobre uma nova tecnologia, claro que basicamente não tão nova assim mas que está promovendo bons resultados. A tecnologia led vem sendo utilizada há muito tempo, há décadas, porém nos últimos dias a indústria está utilizando largamente nos mais diversos setores de produtos. O televisor de Led é um ótimo exemplo.
Além de ser um fenômeno, o televisor de Led promete ótimos benefícios a quem compra, e se as pessoas já consideravam as tvs de Lcd e Plasma ótimos pedidos, a de Led chega para dar um show a começar com uma resolução incrível com cores intensas, o negro profundo e o branco puro. Outro diferencial é a espessura do televisor que foi reduzida até 3cm, possui uma vida útil maior e em sua composição não mais é utilizado o mercúrio, e o chumbo para fixação dos componentes. Outro fator importante foi o consumo de energia que se reduziu em 40%. Além de tudo isso ainda é possível através de um dispositivo assistir a canais com sinal digital assim como sincronizar através do computador a reprodução de filmes, vídeos através da conexão wireless. No Brasil ainda é bastante recente, porém já está em produção. Por enquanto o preço não está acessível mesmo porque é um lançamento.
Analisando de modo geral, a evolução da tecnologia percebe-se que, anos atrás, os produtos que surgiam supriam necessidades, como por exemplo o celular, era um aparelho de aparência horrível e sem muitas funções mas foi inserido para oferecer mobilidade às pessoas assim como eletrodomésticos, eletroportáteis, etc. O interesse principal não era a aparência mas a funcionalidade. Entretanto o que vemos hoje está além da busca de produtos que facilitem a nossa vida. Há muito mais que um simples apelo estético do que se imagina. De acordo com Donald Norman em seu livro “Design Emocional – Por que amamos (ou detestamos) os objetos do dia-a-dia” a percepção dos objetos ocorre em três níveis através de estímulos psíquicos transmitidas às pessoas. Norman explica que existem três níveis de percepção, ou o que chama de os três níveis de design, três níveis de processamento do cérebro, e cada nível tem importâncias particulares. O primeiro nível é o visceral, onde se encontram as percepções automáticas ou pré-programadas; no nível comportamental, estão os processos que regem as ações do ser humano e, por último, o nível reflexivo, referente à interpretação, compreensão, raciocínio e ao afeto.
O primeiro nível, conforme afirma Norman, o visceral, é pré-consciente, ou seja, antes que se pense a respeito do objeto, seja esteticamente ou funcionalmente, já se tem uma idéia prévia formulada. A chamada primeira impressão, o sentimento ou impacto traduzido pelo objeto sem se ter contato físico ou funcional com ele. É de extrema importância se ressaltar neste nível a estética do objeto, mas não afirmando se o objeto em questão deve ser bonito ou não, mesmo porque o que é belo para uma pessoa pode ser esteticamente pouco agradável à outra. O segundo nível é o comportamental, em que se tem uma opinião a partir de uma experiência com o produto. Esse contato diz respeito à função, desempenho e usabilidade e se estes são evidentes e facilitados no produto. Não se releva tanto a parte estética como no primeiro nível. “Os quatro componentes do bom design comportamental: função, compreensibilidade, usabilidade e a sensação física” (NORMAN, 2008, p. 92). Por último, tem-se o nível reflexivo, que envolve o lado afetivo, diretamente relacionado às experiências. Refere-se à mensagem que o produto transmite à cultura de uma sociedade, pois é vista de formas ou significados diferentes, seja através da interpretação, lembranças ou sentimento que este transmite, o uso pode conferir a sensação de superioridade ao usuário. Esse nível se estende por mais tempo, muitas vezes até por anos através de lembranças ou relações com o produto, seja por satisfação ou pelo prazer de mostrar que o está usando. O usuário pode demonstrar orgulho, vaidade, ou até mesmo constrangimento de possuir ou usar o produto.
De acordo com Baudrillard em seu livro O Sistema dos Objetos, o que se tem hoje é uma gama gigantesca de produtos e quase não se tem mais vocabulário para nomeá-los. Ele nos leva então a um questionamento, “ Pode-se esperar classificar um mundo de objetos que se modifica diante dos nossos olhos e chegar a um sistema descritivo?”. E a questão maior está não na sua funcionalidade específica, mas como as pessoas encaram os produtos e suas relações. É complicado nomear objetos que possuem características bastante subjetivas. O que se tem atualmente é que os objetos muitas vezes se perdem em suas funções principais e entram num nível de abstração imposta pelo sistema cultural. Não são os consumidores que impõem essa irrelevância de função mas a cultura e a mídia manifestando-se nos objetos tecnológicos principais alvos de desejo de compra. O sistema tecnológico que envolve todos os produtos exerce forte influencia na cultura de uma sociedade mas o que há por traz disso tudo e o que mais incentiva a compra são os apelos estéticos, emocionais presentes nestes produtos.
Citei como exemplo para este ensaio o televisor de leds da marca Samsung, que oferece muitas funções secundárias, porém ela ainda é uma TV e geralmente as pessoas a usam somente para este fim. Com as facilidades de compras dos mais diversos produtos qualquer pessoa das várias classes econômicas tem possibilidade de comprá-los e o ocorre é que nem todos tem o conhecimento suficiente para utilizá-los de forma adequada ou usufruir totalmente dos recursos oferecidos. Há duas questões a serem discutidas, uma é o status e posicionamento em relação à sociedade outra é que a sociedade de modo geral não está preparada suficientemente para receber essa onda de inúmeras e muitas vezes complexas opções. A evolução de uma sociedade e o giro constante e rápido é importante para a economia pois gera capital e empregos, porém por outro lado há o problema do descarte dos materiais indesejáveis que ocasionam problemas ambientais graves e também que grande parte da população se perde em quase infinitas dívidas através de ofertas de prestações à perder de vista.
Outra tendência percebida nos últimos anos é que as famílias de modo geral e principalmente das cidades metropolitanas estão mais caseiras devido à violência, criminalidade, a disponibilidade de acesso aos recursos via internet entre outros para compras, pagamentos, enfim, inúmeros fatores que ocasionam uma busca maior por eletrodomésticos como televisores, computadores, videogames, etc. Outra observação foi através de uma charge que vi recentemente em um blog de informática onde tinham duas gravuras, uma delas era o desenho de um homem nos anos 90, magro e com uma robusta caixa de TV, e o outro desenho mostrava um homem atual obeso em frente a uma fina e grande TV. Nos anos 90 as pessoas eram mais ativas e o que ocorre agora é que as pessoas tem muitas coisas à mão e o que leva ao comodismo consequentemente ao sedentarismo.
O nosso objetivo como designers é pensar antes de tudo o que a sociedade realmente necessita, somos os designers e usuários destes produtos e apreciamos um produto belo, limpo, fácil de usar e que nos conquiste. O mais importante é não apenas ter boa usabilidade, mas interagir conosco e estabelecer laços afetivos. Não estou abrindo desta forma voltado a “cultura do ter” e bens materiais somente no sentido de um produto ser tão bom que é valorizado deste o nível visceral mencionado anteriormente e atingir o terceiro nível, reflexivo, afetivo e simbólico. De acordo com o que foi mencionado no penúltimo parágrafo, o designer pode projetar meios que estimulem a prática saudável de exercícios físicos e a busca ao contato com a natureza e a consciência em preservá-la.
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 2000.
INFOMANÍACO. Saiba mais sobre a tv de led.
http://www.infomaniaco.com.br/curiosidades/saiba-mais-sobre-a-tv-de-led-bem-melhor-que-plasma-e-lcd/. Acesso em 16 de maio de 2010.
NORMAN, Donald A.
Design Emocional – por que adoramos (ou detestamos) os objetos do
dia-a-dia; tradução Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
SAMSUNG. TV LED 55" Série 6000 – Ultra Slim. www.samsung.com.br. Acesso em 16 de maio de 2010.



Comentários
Re: A tendência Led e os aparatos tecnológicos
Essa separação que o Donald A. Norman propõe na interação entre pessoa e objeto tem alguma coisa emprestada da teoria de sinais da semiótica, não é?
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D o u g l a s S c h m i d t
De[ [signing] veloping] intuitive and more humane inter[ [ations] faces].
[msn][skype][talk]: douglaslondrina [em] gmail [dot] com
Re: A tendência Led e os aparatos tecnológicos
Sim Douglas, a mesma idéia da primeiridade, secundidade, terceiridade...O Dondis A. Dondis no livro Sintaxe da Linguagem Visual também fala sobre isso....muito bons estes livros...
=D
Att.,
Silvana de Borba
Designer Gráfica
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