
Hoje algumas séries continuam passando na TV aberta, mas o hábito de assistir tem virado coisa do passado com a popularização da internet, que roubou a cena e está modificando a forma como estamos acostumados a assistir TV.
O que antes surgiu como alternativa, agora virou hábito. Devido à vontade de se compartilhar conteúdo por uns e da necessidade de conteúdo rápido e de qualidade por outros, grandes sites de download acabaram por se tornar repositórios dos episódios das séries, o que levou ao surgimento de serviços paralelos necessários, como os repositórios especializados em legendas e links das séries. Após isso tudo, ficou fácil achar qualquer coisa que se queira: desde sua série de TV favorita até um programa infantil para seu sobrinho, passando por um documentário que sua mãe queria assistir e um show de música que seu pai esteja interessado. E tudo isso na grande maioria das vezes já devidamente legendado; sendo preciso somente baixar e assistir. Ilegal? Uns dizem que sim, outros nem tanto. O fato é que basta saber os sites certos para, no caso dos seriados mais badalados, em menos de duas horas após a exibição nos EUA já estar assistindo em casa, confortavelmente, um episódio legendado, na maioria das vezes com qualidade melhor que muito canal pago.
Os números realmente impressionam: Dependendo da série, o número de downloads dos episódios supera a audiência na TV. Heroes, por exemplo, foi baixado 6,58 milhões de vezes, enquanto a audiência ficou em 6 milhões. Dexter também superou a audiência da TV, sendo 2,78 milhões de downloads contra 2,3 milhões de expectadores. Os dados são do Torrentfreak, via Blog Séries de TV, Grupo Abril.
A internet complementa a programação da TV de forma abrangente. É lá que conseguimos identificar quão aficionado é o telespectador quando faz downloads de imagens dos personagens, pesquisa sobre os episódios das séries preferidas e interage em nossas comunidades (Bernardo Hohagen - Fox Networks do Brasil)
Um estudo feito pela emissora CBS revelou que as pessoas que baixam séries de TV passam a assistir mais televisão. Segundo estes mesmos dados, metade das pessoas que baixavam conteúdo pela internet nunca tinham visto estas séries na TV (via TV.com). E isso acaba por reforçar iniciativas como o Hulu, site de vídeos que oferece episódios e seriados completos, que no final acaba por ser resultado da parceria de três conglomerados de TV aberta norte-americanos. Infelizmente este tipo de site ainda tem acesso restrito nos EUA, o que impede assistir os vídeos aqui do Brasil. Porém é um grande passo por parte das emissoras na interação com os usuários.
As emissoras passaram anos entendendo a internet como inimiga, como algo que estava ali apenas à disposição do publico, com seus downloads, apenas para roubar audiência. Mas aos poucos elas estão entendendo que podem usá-la a seu favor, fidelizando usuários e gerando receita. Um exemplo disso e o que a NBC esta fazendo ao criar o inovador “Fan it”, uma iniciativa com redes sociais para fidelizar usuários, premiando a presença e participação deles nas redes sociais. O que a NBC espera é que os usuários promovam, interajam e discutam sobre seus programas, mas citando o artigo Marketing 2.0 quer dizer: o cliente tem sempre razão: “O marketing poderá ter os dígitos que quiser, mas o consumidor somente irá participar, colaborar, falar positivamente sobre você e, finalmente, se engajar, ao perceber que o seu comprometimento com ele foi real“.
A difícil mudança de cultura não está somente em aceitar que o consumidor mudou e que a comunicação está em constante mudança, mas de aceitar, em primeiro lugar, que você mesmo tem que mudar. (Artigo O que estamos aprendendo com as redes sociais)
Outra prova de que as emissoras estão começando a entender o poder do usuário e da internet é o que a ABC fez com Lost. Lost foi a série que mudou a forma de interação com o público. A série estreou em 2004 e em 2006, já com altos índices de audiência, começou a interagir com o público por meio de um jogo online que dava pistas sobre a próxima temporada. Também foram feitos episódios especialmente para a web, que também adicionavam conteúdo ao seriado, isso sem falar na relação dos produtores da série com o público, através de podcasts, entrevistas e matérias exclusivas para revistas. O buzz da série foi tão grande que os próprios fãs passaram a criar e gerenciar fóruns e blogs especializados para, assim como no FaceBook, Twitter e outros, discutir o que se passou no episódio, impressões, criar/entender novas teorias e descobertas acerca dos mistérios que eram revelados e criados no decorrer da série. Lost teve médias de 131 milhões de posts online, com cerca de 127 milhões de leituras por mês (via MediaWeek). O episódio final, que foi ao ar no dia 23 de maio, tem gerado tantas discussões que algumas pessoas (como eu) chegaram ao ponto de evitar acessar determinadas ferramentas para não ler spoilers do final da série antes de assistir o último episódio.
Mas não só as emissoras estão buscando oferecer conteúdo online para seus usuários. Para o futuro, iniciativas como Google TV, que prometem trazer conteúdo sob demanda da internet para a TV, parecem sempre ser promissoras, muito embora tenham sido várias as tentativas anteriores de se integrar vídeos da internet com a TV, nenhuma com o tão esperado sucesso.
Estamos caminhando para um futuro em que os usuários ficarão cada vez mais com o controle do conteúdo, do que quer assistir, quando e onde. Tudo será baseado na sua interação com o meio proposto, seja ele através de um celular, aparelho de televisão ou a própria internet. A nossa função nisso tudo é pensar em formas cada vez melhores e mais agradáveis de o usuário interagir com todo o conteúdo à disposição, seja através de novos dispositivos, ou o próprio conteúdo, conteúdo relacionado ou serviços disponíveis.
A sociedade hoje anseia por liberdade de fazer a sua própria programação. Não é de hoje que muitos de nós desejamos assistir conteúdo sob demanda, nossos programas preferidos em horário mais conveniente e com conforto. Legal ou não, a TV pela internet e uma forma mais democrática de gerenciar o conteúdo que queremos na nossa casa.
Realmente não creio que a TV venha a morrer, mas na forma como ela e hoje, terá de se adaptar para sobreviver. A internet pode e um complemento e, se bem usado como parceiro e não como concorrente, pode trazer bons frutos, tanto para as emissoras, que poderão ficar mais próximas dos usuários, como para os próprios usuários, que poderão ter conteúdo mais de acordo com seus gostos e suas necessidades, e existem muitas outras oportunidades de interação que podem ser exploradas na parceria destas mídias.



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